O EI utiliza certos textos e clérigos para fornecer uma justificativa religiosa para a sua violência, particularmente um livro chamado "The Management of Savagery"
Publicado em 07/02/2015, às 10h22
AFP
O grupo Estado Islâmico (EI)
aprendeu com os erros do passado cometidos pelos movimentos jihadistas e
estabeleceu uma base de apoio quase invencível dentro do Iraque e
Síria, com apelo espetacular para muitos dos muçulmanos sunitas do
mundo, revelou um novo livro.
Os autores de "ISIS: Inside the Army of
Terror", publicado neste mês nos Estados Unidos, conversaram com dezenas
de combatentes e membros do grupo para compreender seu fascínio e como
ele justifica suas táticas brutais. ISIS é o acrônimo do Estado Islâmico
em inglês.
Em uma entrevista por telefone à AFP, um
dos autores, o jornalista de origem síria Hassan Hassan, declarou que é
vital entender que algumas das crenças religiosas centrais do grupo
foram amplamente difundidas.
"Apresenta-se como um movimento
apocalíptico, falando sobre o fim dos dias, o retorno do califado e sua
eventual dominação do mundo", explicou Hassan, que vive em Abu Dhabi,
onde trabalha como pesquisador para um "think tank".
"Essas crenças não estão à margem - elas
são absolutamente dominantes. Elas são pregadas por mesquitas em todo o
mundo, especialmente no Oriente Médio", disse.
"O ISIS pega essas crenças existentes e
as torna mais atraentes, oferecendo um projeto que está acontecendo
agora", explicou, usando um nome alternativo para o EI.
A pesquisa de Hassan junto com o
co-autor Michael Weiss - um jornalista baseado nos Estados Unidos - deu a
eles uma visão rara sobre o treinamento de novos recrutas do EI, que
varia de duas semanas a um ano.
"Os recrutas recebem formação militar,
política e religiosa. Eles também são treinados em contra-inteligência
para evitar infiltrações", disse Hassan.
"Depois de se formarem, os recrutas
permanecem em observação e podem ser expulsos ou punidos se mostrarem
hesitação, ou enviados de volta aos campos para fortalecer a sua fé",
declarou.
O EI utiliza certos textos e clérigos
para fornecer uma justificativa religiosa para a sua violência,
particularmente um livro chamado "The Management of Savagery" (A Gestão
da Selvageria, em tradução livre), que argumenta que a brutalidade é uma
ferramenta útil para incitar o Ocidente a uma reação exagerada.
SEIS CATEGORIAS
Os autores descrevem seis categorias de recrutas do EI.
Apenas duas estão enraizadas na
religião: elas incluem os ultrarradicais que dominam os escalões
superiores do grupo e as pessoas que aderiram recentemente à sua
ideologia extremista.
Outros recrutas são apenas oportunistas
que buscam dinheiro ou poder; pragmáticos que querem estabilidade e
encaram o EI como a sua única chance; e os combatentes estrangeiros
cujos motivos variam muito, mas "são quase sempre alimentados por
equívocos graves sobre o que está ocorrendo no Iraque e na Síria".
A categoria final e mais importante de
recrutamento é muitas vezes subestimada pelo Ocidente - os recrutas
atraídos pela ideologia política do grupo.
Muitos muçulmanos sunitas da região se sentem ameaçados por xiitas liderados por um Irã ressurgente.
"Em toda a região, os xiitas estão
confiantes, corajosos e em ascensão, enquanto os sunitas se sentem
inseguros e perseguidos", disse Hassan.
"Muitos discordam de ISIS por razões
éticas, mas o encaram como o único grupo capaz de protegê-los",
explicou. Os autores também ressaltam que o EI não é novo, mas surgiu
das cinzas da Al-Qaeda no Iraque (AQI), um dos inimigos mais brutais dos
americanos após a invasão de 2003.
A AQI foi amplamente derrotada depois
que os Estados Unidos convenceram tribos locais a se erguer contra ela -
uma estratégia conhecida como "The Awakening" (O despertar), que
influenciou profundamente as ações do EI.
"Desde o início, eles estão obcecados com o 'Awakening'", disse Hassan.
"Eles fizeram de tudo para impedir que
isso acontecesse novamente: construíram células adormecidas, compraram
lealdade, dividiram comunidades", explicou.
"Eles conseguiram fazer com que uma
resistência interna seja praticamente impossível. Nenhuma tribo vai
combatê-los, porque acabará lutando contra seus próprios irmãos e
primos", acrescentou.
VINGANÇA DE SADDAM
Os autores também retratam o EI como
uma vingança do regime do Partido Baath de Saddam Hussein mais de uma
década depois que o ditador iraquiano foi derrubado do poder.
Muitos dos principais tomadores de
decisão do EI serviram no exército de Saddam ou nos serviços de
segurança, afirma o livro. Embora os baathistas fossem originalmente um
movimento secular, Saddam introduziu uma "campanha de fé" na década de
1990 que buscava islamizar a sociedade.
"Poucas pessoas se centraram no impacto desta campanha", disse Hassan.
"Ela radicalizou muitos baathistas e
eles combinaram a violência do regime com a do jihadismo, se tornando
ainda piores que a Al-Qaeda".
De fato, Osama bin Laden se desentendeu
com o líder da AQI Abu Musab al-Zarqawi por sua brutalidade horrível e
pelos ataques sectários contra muçulmanos xiitas.
Zarqawi, que foi morto por um ataque com
mísseis americano em 2006, era tão fanático que fazia Bin Laden parecer
um moderado, e exatamente as suas ideias foram absorvidas pelo EI.
Hassan continua pessimista sobre os
esforços ocidentais de contra-insurgência. "Continuo ouvindo este
argumento de que você pode enfrentar o ISIS com propaganda, que esta é
uma guerra de informação", disse.
"Mas eles combinam religião,
geopolítica, economia e muito mais na sua ideologia. Não é uma ideologia
frágil - eles têm apelo de massa", completou.



