
Marco Damiani _ 247 – Nunca houve clareza no PT
sobre como se relacionar com a mídia tradicional e familiar. A negação, a
crítica, o distanciamento sempre foram as marcas mais visíveis da
relação. O relacionamento que continha desprezo e até ojeriza nos
primeiros tempos de formação do partido, no ABC – quando os jornalistas
em geral eram chamados de petistas e Lula e o comando dos sindicalistas
rechaçavam o diálogo com "a imprensa burguesa" - tornou-se agora de
vida ou morte. Esse longo braço de ferro com a mídia tal qual ela
sempre foi conhecida – Globo, da família Marinho, Folha, dos Frias,
Estado, dos Mesquista etc etc – está perto de uma definição. Como nunca
antes, todos os veículos de maior faturamento comercial e circulação do
País estão rasgadamente contra o PT – e o PT definitivamente contra
todos. É a final da luta do século, com revanche para sabe-se lá quando
houver novas eleições gerais.
Nesta eleição, o caso virou briga de rua, em que vale, expressamente,
tudo. Concretamente, vale até o maior vazamento eleitoral da história
do Brasil. De fato, nunca se tinha visto antes uma operação tão
orquestrada, de na hora certa da eleição a voz do delator premiado Paulo
Roberto Costa aparecer em todas as mídias para entregar "3% para o PT"
nos contratos que ele operava na Petrobras. O espaço natural que o
vazamento iria mesmo ocupar no noticiário, na abertura da reta final da
eleição, em pleno empate técnico entre a presidente Dilma Rousseff e o
senador Aécio Neves, foi amplificado ao último volume Neste final de
semana, para completar a blitzkrieg, tratamento extra VIP é dado neste
final de semana pelas revistas Veja e Época, em campanha desabrida pelo
candidato do PSDB.
Finalmente, agora, com a maior aliança de mídia já feita no Brasil
explicitamente contra uma candidatura presidencial – a de Dilma, como
todos sabem -, o PT sabe o que fazer. Após ter passado 12 anos no poder
sem ter uma proposta consensual sequer a respeito de uma renovação, que
seja, da legislação que regula os meios de comunicação no Brasil, o
partido tem uma proposta regular o setor. Antes tarde do que nunca, diz o
sábio povão.
PT CONVIVEU SEM CONTESTAR A MÍDIA - A chamada Lei de
Meios, que não foi incluída no programa oficial da candidatura Dilma
por veto da presidente, o que demonstrou a falta de consenso, voltou à
baila. E pela voz da própria Dilma, que disse a blogueiros finalmente
ter aderido à ideia de mudar as normas que permitem a maior concentração
de propriedade do mundo, monopólio, participações cruzadas e, é claro,
autoregulamentação publicitária. Um espetáculo de privilégios que foi
brindado com reserva de mercado desde os tempos do regime militar, com
as leis que impedem a participação de grupos estrangeiros no controle da
empresas de comunicação. Por baixo do pano, ainda nos anos 1960, a
Globo quebrou essa regra, mais tarde a Abril se capitalizou com
sul-africanos apresentados pela CIA, e a concentração só se fortaleceu.
O partido, conscientemente, fez sua trajetória na diagonal dos meios
que encontrou implantados, quando, segundo o próprio PT dos primeiros
tempos, a história do Brasil estava começando, exatamente porque o
partido surgia. Agora, porém, a aposta é alta, do tipo quem vencer leva
tudo: a radicalização sem precedentes ou vai muda o velho estado de
coisa, bem anterior á fundação do PT, em caso de vitória de Dilma, ou
tende a tornar o setor ainda mais concentrado na propriedade e no poder
de fogo.
O impacto de toda a mídia de um País, de uma vez só, veicular a voz
BBB de Costa disparando contra o PT coroou o movimento de rasgar de
fantasia da mídia. O caso virou, é claro, comentário de botequim. A
Folha, que nos comerciais diz que é a favor disso, contra aquilo, que é
democrática, etc, passou recibo no Facebook ao publicar um meme de Aécio
em festa como se fosse do próprio jornal. "Também estamos em Carnaval"
foi o recado. De bandeja, em seguida, aparece o vídeo de Costa, com o
dedo no olho do PT. E contra esse "golpe", assim classificado pela
própria Dilma, o partido se debate agora.
Será um feito não menor que o espetacular a presidente Dilma conter
danos à sua imagem eleitoral debaixo da verdadeira operação "Tempestade
no Deserto" desfechada pela mídia tradicional. A presidente tem algum
tempo para se recuperar, mas deve contar que novos ataques virão. Quem
sabe não aparece logo logo uma fita com o depoimento do doleiro Alberto
Yousseff? As fontes são praticamente as mesmas.
NO CAMPO DA MÍDIA - A linha escolhida é da denúncia
da operação orquestrada. "Um golpe", como definiu a presidente, no que
foi acompanhada por seu coordenador de campanha Miguel Rossetto. Não se
sabe se vai dar certo, mas que, a esta altura do campeonato, é a única
posição que restou ao PT, quanto a isso não há nenhuma dúvida na direção
partidária. De Lula a Rui Falcão, e passando por Rossetto e Aloizio
Mercadante, a renovada briga contra a mídia ganhou também a posição da
presidente Dilma.
A relação de disputa entre a mídia e o PT está sendo travada no campo
em que, paradoxalmente, a própria mídia queria. O PT nunca conseguiu –
ou melhor, nunca nem tentou – criar a sua própria base de informação
própria. Ainda que o atual presidente do partido, Rui Falcão, seja um
jornalista que chegou a cargos de comando em sua carreira. Experiências
bem sucedidas como a TV dos Trabalhadores, da CUT, não mereceram o
carinho devido da direção do partido para crescer e se multiplicar. Na
mídia de papel, jamais o PT quis ter um jornal próprio, no que, nesse
particular, foi uma negação pouco inteligente da secular experiência do
PCB, pela esquerda, em ter seus próprio veículo. Ou não quis, ou não
soube fazer.
No PT, assunto de mídia sempre foi segredo guardado a sete chaves.
Não há notícia de que a direção partidária, desde a fundação da
agremiação, tenha liderado um diálogo amplo para tratar do tema. Mesmo a
proposta de Lei de Meios não é clara para a maioria dos militantes.
Provavelmente, cada um que se ocupa do tema tem seu próprio projeto.