26 setembro 2014

Vendedores de expressões: o PM e o camelô


Em terra de cego quem tem um olho é rei! Este é um dos ditados que mais se adequam à realidade da sociedade brasileira.
Uma população cuja cultura é pífia, cujo analfabetismo é generalizado, cujo evento maior é o futebol e o carnaval, cujo governante bom é o analfabeto que critica o parecer de um profissional capacitado, um país onde o número de feriados no ano é o que determina se será um ano bom ou um ano mau; este país é um paraíso para aqueles que vivem da venda de expressões.
Ouso dizer que mais da metade da população adulta do nosso país é analfabeta. Na minha opinião, alfabetizado não é a pessoa que sabe ler e escrever, mas sim a pessoa que consegue captar a mensagem da leitura realizada. Alfabetizado é a pessoa que consegue materializar o pensamento, por meio da escrita. Saber ler e escrever pode ser um simples ato mecânico de produzir letras no papel ou de sonorizar as palavras nele contidas.
Chegamos ao ponto onde o que é dito por um membro influente da sociedade vira lei. Esse membro pode ser um lider religioso, um advogado, um juiz, um cantor ou até mesmo um jogador de futebol. Se ele falar com propriedade, se ele tiver técnica de oratória e tiver espaço para difundir suas idéias, ele se torna um ícone.
Aí pensamos… Ótimo! Um ícone na sociedade pode ser a materialização de um verdadeiro líder!
Sim, mas se esse ícone tiver o intuito de propagar suas idéias, de vender suas palavras, ou de interpretar uma norma, para defender os interesses pessoais, estaremos diante de um líder negativo, de um comerciante de expressões.
Li um texto onde um famoso jurista brasileiro menciona acerca de um episódio ocorrido no Estado de São Paulo, onde, segundo esse jurista, “Um PM executou sumariamente um camelô, em SP. As imagens não mostram situação de legítima defesa (porque o camelô não avançou contra o policial, sim, tentou retirar-lhe o “spray”).”
Pois bem, não vou julgar o camelô que sucumbiu aos ferimentos da arma do Policial Militar. Poderia ser ele um ícone da cultura brasileira se tivesse oportunidade de acesso à educação. Não sei se era um meliante, um traficante ou um cidadão de bem, mas independente de qualquer coisa, não teve um final de vida merecido. Morreu por defender um ideal. Morreu por, talvez, querer defender seu companheiro que estava imobilizado ao chão por Policiais Militares. Morreu por que aprendeu que não se deve respeitar a Autoridade Pública, no caso o Policial Militar.
Quanto ao Policial Militar, aquele que praticou a conduta de disparar a arma contra o corpo da vítima, também não sei qual a sua conduta profissional, se se trata de um corrupto, um acharcador ou um exemplo de Policial a ser seguido pelos demais membros da guarnição. Entretanto a conduta que ele demonstrou momentos antes de disparar a arma é de um Policial Militar preparado e responsável. Em momento algum, conforme o vídeo disponível na página do Estadão o policial apontou a arma para quem quer que seja com o dedo na tecla do gatilho.
A situação em que se encontravam os policiais era desfavorável e extremamente perigosa. A qualquer instante um meliante que tivesse em meio às pessoas que rodeavam o local da ocorrência poderia, de posse de uma arma, executar os três policiais. E nem por isso o Soldado sacou a arma em vão. Reparem que ele somente sacou sua arma decorridos 31 segundos do vídeo. Do momento compreendido entre o segundo 31 até to até o instante em que o disparo ocorreu (2:28), seu dedo indicador direito ficou o tempo inteiro fora da tecla do gatilho.
Essa conduta, prezados Senhores Doutores da Lei, demonstra um grau de profissionalismo muito alto. No instante 2:27 o policial está com o rosto voltado para sua retaguarda, com a arma apontada para o solo e com o dedo fora do gatilho.
O tempo decorrido entre o instantes 2:28 e 2:29 acontece uma série de atos. O primeiro deles, foi a ação da vítima do disparo contra a mão esquerda do policial. Essa ação inclusive provocou o disparo de um jato de gás de pimenta no rosto de um dos policiais que estavam tentando imobilizar o homem deitado ao solo. Ato contínuo o segundo momento compreende a tentativa de defesa do policial em se defender de uma agressão injusta do vitimado. O terceiro ato foi o disparo de arma de fogo contra o camelô.
Três são as situações que eu queria chamar a atenção aos leitores, principalmente aos profissionais da Imprensa que disparam, em forma de rajadas, suas opiniões atécnicas e irresponsáveis:
1. A ação adotada do rapaz que sofreu o tiro, salvo melhor entendimento ou melhor imagem ou melhor sei lá o que, foi uma tentativa de subtração, de coisa alheia móvel, mediante violência, de um objeto de trabalho de um policial militar que estava em plena atividade de combate ao crime.
2. Retornem ao vídeo e reparem que até o instante 2:28 e a partir do instante 2:30 o dedo do policial continuava fora da tecla do gatilho. Volto a repetir, trata-se de uma conduta de um profissional experiente. Se fosse um Policial novato, provavelmente teria efetuado disparos de arma de fogo para o alto com o intuito de dispersar a multidão, pondo em risco a vida de outras pessoas que nem estavam cientes da ocorrência.
3. Além de tudo o que descrevi aqui, reparem no áudio do vídeo em comento que a todo instante uma das pessoas que rodeavam os policiais incitava-o dizendo: “atira, atira, atira”, mas nem por isso o policial teve um desvio de comportamento capaz de por em risco a vida de outras pessoas, pondo seu dedo na tecla do gatilho.
Esse tipo de Policial, com devida vênia dos Juristas, Jornalistas e vendedores de expressões, eu costumo classificar como sendo um verdadeiro profissional de segurança pública.
Para que possamos definir a conduta de um profissional e ainda, para definirmos se a ação foi ou não correta, devemos ter conhecimento de causa. E este caso em particular, mais que um disparo e uma morte, compreende a adoção de uma atitude profissional, baseada na técnica de combate ao crime e sob influência emocional extrema, haja vista a hostilidade sofrida pelos Policiais e o ânimo e desrespeito daqueles que os rodeavam, inclusive do rapaz que veio a falecer.
Na minha opinião, a legitimação do proferimento de crítica à uma conduta profissional, deve ser acompanhada de minuciosa opinião acerca da conduta a ser adotada diante da situação apresentada. Mas a conduta opinada há de ser exequível.
Então, humildemente eu peço aos profissionais que julgaram como sendo equivocada a conduta do policial que, digam por favor, qual seria a ação correta a ser adotada pelo Policial Militar que efetuou o disparo? Qual?
Fonte - Texto original: clique aqui
Rogério Nascimento

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