BR 247 – O ministro da Fazenda, Joaquim Levy,
apresentou nesta quarta-feira 11 ao Congresso o Plano Anual de
Financiamento de 2015. É, em detalhes, o ajuste fiscal que ele se
comprometeu a fazer. Para Levy, a aprovação do plano "é crucial para
manter as conquistas sociais obtidas até aqui". Já se sabe, no entanto,
que cumprir esta missão está cada vez mais difícil.
Na véspera de entregar o ajuste ao Congresso, Levy recebeu da Câmara
dos Deputados uma dura notícia contra suas intenções. Entre aplausos da
Mesa, os parlamentares aprovaram a obrigatoriedade, pelo governo, de
usar recursos do Tesouro para bancar todas as emendas ao Orçamento que
eles conseguirem aprovar. A conta, somente este ano, já é estimada em
cerca de R$ 9 bilhões.
Questionado sobre o fato de a ordem de despesas trombar com a
iniciativa da Fazenda de economizar para equilibrar as contas públicas, o
presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi bastante claro ao dizer que,
na cabeça dos parlamentares, a ideia de ajuste é bem diferente da
defendida por Levy:
- Não posso dizer que o ajuste tem de sair nesse formato e deste
tamanho, respondeu Cunha. "Essas contas são de que fez as propostas",
completou, deixando claro que as suas próprias contas são outras.
Do Senado, enquanto isso, dirigentes das centrais sindicais se
reuniram com o presidente Renan Calheiros para manifestarem sua oposição
aos cortes anunciados em benefícios trabalhistas. Na matemática de
Levy, desse setor poderia vir uma economia de mais de R$ 20 bilhões este
ano, mas é difícil que sua proposta prevaleça. "O trabalhador não pode
pagar pelo ajuste fiscal", aquiesceu Renan aos sindicalistas.
Antes, a própria presidente Dilma Rousseff desautorizou publicamente o
ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, em seu anúncio de revisão de
cálculo para o reajuste do salário mínimo. Barbosa retrocedeu e procurou
não mais falar em público, deixando Levy sem um aliado para enfrentar o
debate com a opinião pública.
No Banco Central, o presidente Alexandre Tombini e seus diretores têm
deixado claro, em diferentes manifestações ao mercado, que não abrirão
mão de cumprir o papel de controlar a inflação. Todos os interlocutores
da autoridade monetária estão entendendo que, com essa sinalização, o
ciclo de alta de juros vai continuar. Para o ajuste que Levy se propõe a
fazer, essa é mais uma projeção ruim, uma vez que significa desestímulo
para a atividade econômica e, neste sentido, implicaria numa menor
arrecadação de impostos.
Na economia, os efeitos da operação Lava Jato sobre as grandes
empreiteiras ainda não estão de todo calculados. É certo, porém, que
todas as grandes empresas envolvidas estão em dificuldades, o que já se
traduz na paralisação de canteiros de obras e demissão de trabalhadores.
A baiana OAS, por exemplo, corre neste momento atrás de R$ 500 milhões
para evitar uma entrada abrupta no regime de recuperação judicial. Na
prática, uma concordata. Como ela, outras grandes empregadoras estão em
situação similar, o que indica problemas na economia real enquanto
Brasília conspira contra o ajuste pensado por Levy. Para ele, o cenário
que já era difícil está ficando pior.

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