Luis Nassif, Portal IG
Um dos jornalões publica reportagem afirmando que Dilma Rousseff teria rompido com determinado empresário por conta de uma intriga palaciana, e estaria rompido com os empresários em geral, por falta de reconhecimento e de gratidão pelos apoios que deu à economia real - com desonerações de folha, isenções de IPI, linhas favorecidas de financiamento do BNDES etc.
Hoje em dia, o Padrão Fifa de Cobertura Jornalística obriga a se colocar em dúvida qualquer informação com viés político.
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Se fosse verdadeira a informação, Dilma estaria errada de levar relações políticas e empresariais para o campo pessoal.
Mas, provavelmente, oito anos de exercício do poder como Ministra, quase quatro anos como Presidente, já ensinaram a Dilma que - ao contrário da guerrilha - o cimento não são as lealdades pessoais, mas o jogo de interesses recíprocos.
Se a presidente, de próprio punho, assina uma portaria isentando determinado setor do pagamento do IPI, a gratidão estará garantida enquanto a caneta continuar necessária.
Por isso mesmo, a maneira de conquistar empresários não é através de favores pessoais ou setoriais, de mimos. É envolvendo-os em um projeto consistente e de longo prazo, em cima de ideias claras e valores explícitos.
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Ao longo de seu governo, Dilma lançou uma série de medidas beneficiando a economia real, algumas bastante relevantes:
1. O PSI (Programa de Sustentação do Investimento), financiando a compra de caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e bens de capital;
2. Reintegra, sistema permitindo a devolução de impostos pagos na produção pelos exportadores;
3. preferência nas compras públicas para pequenas e micro empresas nacionais;
4. redução de IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados);
5. o conteúdo nacional nas plataformas da Petrobras;
6. os editais da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), garantindo financiamento e investimento em diversos setores estratégicos da economia, especialmente na saúde e defesa.
7. dois planos de safra excepcionais.
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Qual a razão, então, para tanto mal estar empresarial?
A primeira, são as dúvidas sobre a condução da política econômica. As trapalhadas de Guido Mantega, Ministro, e de Arno Agustin, Secretário do Tesouro, calaram fundo no estado de ânimo empresarial. Não por eles, propriamente, mas por terem se tornado o símbolo maior da teimosia da Presidente. A teimosia gerou atrasos no programa de concessões, problemas com o novo modelo elétrico. A saída de ambos seria um sinal de mudança de estilo.
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A segunda, a dispersão de incentivos e estímulos sem um norte claro.
O atual momento da economia brasileira e mundial exige uma definição de prioridades, uma clareza sobre o papel que a indústria brasileira buscará no mundo globalizado, nas cadeias internacionais e uma visão sistêmica de como avançar.
Trata-se do grande desafio do próximo mandato, seja de quem for. E a arma para a cooptação dos empresários não serão benefícios pontuais e programas, mesmo que relevantes, apenas, mas conceitos claros, ideias-força. E um(a) presidente que saiba levantar a auto-estima nacional e envolver todo o país na guerra da competitividade e do desenvolvimento sem perder o foco social.
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